Lembro com nitidez daquele fim de tarde, eu, ainda menina, brincando sozinha no quintal. Minha irmã era bem mais velha e estava na escola, então a solidão do quintal era só minha companhia. Na correria para buscar um brinquedo esquecido, acabei prendendo o mindinho na porta de tela. A dor foi imediata. Desabei num choro alto, um grito instintivo. Em segundos, meu pai apareceu. Pegou meu dedo, fez um curativo meio improvisado, beijou minha mãozinha e, sem drama, apenas disse: “Já passou, filha, pode voltar a brincar.” Rápido, gentil, seguro.
Esse gesto do meu pai marcou profundamente minha infância. Saber que ele escutava meu grito me dava segurança: não havia medo ou vergonha para pedir ajuda, apenas a certeza de que seria acolhida. Hoje percebo que essa facilidade de buscar meu pai quando machucada foi o que, tempos depois, me fez aproximar de Deus com a mesma confiança.
Na vida adulta, passei por situações onde precisei dessa confiança: crises financeiras, saúde abalada, perdas profissionais. Tudo aquilo que antes era resolvido com um curativo e um beijo, ganhou outra dimensão. Eu precisei aprender, muitas vezes chorando para Deus, que a mesma confiança pura de uma criança ao pai pode ser levada ao Pai Celestial. O que vivi com meu pai me ensinou, imperceptivelmente, a recorrer sem medo ao consolo dos céus.
“Deixai vir a mim os pequeninos...”
Jesus nos ensina na Bíblia sobre irmos até Ele como crianças, com sinceridade e confiança. Mesmo na dor ou confusão, podemos abrir nosso coração, certos de que Deus nos ouve e cuida.
Quatro passos práticos para se aproximar de Deus como uma criança
1. Despeje o coração diante de Deus
A primeira lição que tirei daquele incidente do mindinho foi a importância de não filtrar o que sentia. Chorei, gritei e fui ouvida. Com Deus, é igual: você não precisa de orações decoradas ou palavras bonitas. Fale como está, diga do jeito que conseguir. Ore com verdade, mesmo que seja só um choro ou um suspiro. Não é preciso esconder os sentimentos do Senhor; Ele entende, acolhe e não julga.
Por experiência própria, aprendi a liberdade de dizer exatamente o que estou sentindo, sem me preocupar se vão achar exagero ou fraqueza. Deus está pronto a ouvir aquele grito sincero do coração, assim como meu pai estava para seu ouvido atento, anos atrás.
2. Reconheça a dor e não esconda
Sempre tive maior abertura com meu pai do que com minha mãe. Ela era controladora, tinha dificuldades com meus sentimentos e julgava minhas dores como exagero. Eu aprendi, cedo demais, a esconder machucados dela, com medo de ser repreendida. Mas com o tempo e maturidade, e principalmente com Deus, compreendi que Ele deseja o oposto: em vez de esconder, Ele quer que reconheçamos as dores e as levemos a Ele.
O reconhecimento da dor é tão libertador quanto ser escutada de verdade. E, algumas vezes, buscar apoio em pessoas de confiança da igreja faz parte desse processo – é vulnerável, dá medo, mas é onde a cura começa. Assim como Jesus demonstrou sensibilidade à dor, encontramos na Bíblia exemplos da importância do acolhimento entre irmãos e irmãs.
3. Processe as emoções: não fuja delas
Não é suficiente admitir que a dor existe. Sempre me preocupei, na minha jornada, em trabalhar a tristeza, raiva ou luto para não levar sofrimento não curado para novas fases da vida. Vejo que esse processamento muitas vezes é ignorado até mesmo em ambientes de igreja. Há, infelizmente, uma resistência em encarar emoções profundas. Só que, conversando com Deus, é possível acessar um lugar seguro para processar e permitir cura verdadeira.
Quando a gente não faz esse movimento, acabamos despejando sentimentos não resolvidos em quem amamos, nos relacionamentos e até mesmo nas decisões. Ao me permitir esse trabalho interno com a ajuda de Deus e, em alguns casos, pessoas maduras na fé, aprendo diariamente a crescer emocionalmente e espiritualmente, como a mulher virtuosa que compartilho no meu livro devocional “Virtuosa”.
4. Peça orientação, mesmo sem as palavras certas
Uma das minhas maiores descobertas é que não preciso ter as palavras perfeitas para pedir direção de Deus. Assim como quando criança, bastava um choro e meu pai sabia o que fazer. Deus entende nossas orações mesmo quando não sabemos o que ou como falar. Ele decifra até mesmo lágrimas, silêncios e gemidos.
Já errei, me atrapalhei e até deixei de orar por não saber como pedir. Com o tempo e intimidade, aprendi que a sinceridade tem mais peso que a formalidade. Buscar orientação de Deus é abrir espaço para ser guiada por Ele em cada detalhe da vida.
A cada busca sincera, vejo que minha confiança cresce, porque percebo que Deus nunca me deixa sozinha diante das escolhas ou desafios mais difíceis. A postura de criança, no sentido bíblico, é a de quem espera – não na ansiedade, mas com confiança e pureza de coração.
Deixar de ser adulta diante do Pai é escolher ser acolhida em todas as fases e dores.
Conclusão
Quando permito que essa inocência e confiança guiem minha vida, encontro consolo, esperança e renovação diante dos tropeços e quedas da vida. Sigo acreditando que aproximar-se de Deus como uma criança nunca será sinal de “fraqueza”: é o caminho mais profundo de força, identidade e cura.
Sou mãe, esposa de pastor, autora premiada de livros cristãos, agente literária, apresentadora de podcast. Amo memorabília dos anos 80, café Starbucks, minha família e um cachorro divertido que faz parte da nossa casa risonha. Se você quer ver mais sobre como as crianças (e qualquer pessoa!) podem confiar em Deus, visite meu site e conheça meu trabalho, principalmente o livro infantil sobre confiança e fé para os pequenos. E, claro, descubra o devocional “Virtuosa” – que é convite diário para mulheres viverem propósito e confiança verdadeira em Deus.
Perguntas frequentes
Como posso me aproximar mais de Deus?
Você pode se aproximar de Deus buscando um relacionamento genuíno e sem máscaras, entregando seus sentimentos e pensamentos a Ele, orando com sinceridade e cultivando a confiança de que será ouvida. Aprofunde sua convivência diária com Deus, lendo a Bíblia, participando de momentos devocionais (como sugiro em “Virtuosa”) e compartilhando suas dores e alegrias em oração sincera.
Quais são os passos práticos sugeridos?
Os quatro passos práticos são: despejar o coração diante de Deus sem filtros, reconhecer e compartilhar a dor, processar as emoções em vez de negá-las e pedir sempre orientação, mesmo sem palavras bem escolhidas. Todos eles demandam vulnerabilidade, mas trazem leveza e solidez ao relacionamento com Deus.
É preciso ir à igreja para isso?
Ir à igreja ajuda muito na caminhada, porque lá encontramos apoio, escuta e exemplos de fé. No entanto, aproximar-se de Deus é possível em qualquer lugar: no silêncio do quarto, durante uma caminhada, no choro sincero e até nos momentos de crise. Deus valoriza o coração aberto independente do local físico, mas o convívio com outros cristãos pode fortalecer e sustentar essa busca.
Como ter mais confiança em Deus?
A confiança cresce com experiência e intimidade. À medida que você abre o coração, entrega as dores e se permite ser guiada, percebe o cuidado e o amor de Deus nas situações cotidianas. O próprio Jesus nos convida: “Vinde a Mim...” Saber que somos ouvidos e amados nos ensina a confiar dia após dia.
Por que confiar em Deus é importante?
Confiar em Deus traz equilíbrio, paz e a certeza de que não estamos sozinhos nos desafios e alegrias da vida. A confiança permite encarar o futuro com esperança, sabendo que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus e vivem Seu propósito.

